quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Na boleia das marés

Num oceano tão antigo como o mundo, governado por Neptuno, habitam as sereias.
São belas, coroadas de flores marinhas e de cabeleiras esvoaçantes ao capricho das correntes.
Feiticeiras sempre em vigília, que possuem na voz a doçura e o encanto das palavras. Dizem que são imprudentes os que escutam os seus cantos e promessas sedutoras...

Naquela profundidade azul e misteriosa, havia uma gruta, onde brilhava uma luz morna e suave.
Lá dentro, uma das filhas de Neptuno enfeitava-se com os seus colares predilectos, feitos de conchas raras enfiadas em finíssimos fios de algas vermelho rubi.
Um grande búzio tocava as suas músicas de eleição...ela sorria, na expectativa daquele encontro, enquanto penteava o longo cabelo com um pente de marfim nacarado.
Pequenos peixes coloridos depositavam-lhe flores minúsculas naquelas madeixas sedosas e perfumavam-na com as essências da sua brisa favorita.
Havia um lindo brilho nos seus olhos verdes.
Alisou a cauda, olhou em volta pela última vez fixando cada pormenor e saiu furtivamente.
No peito levava a emoção, na cabeça as imagens que lhe eram mais preciosas, na garganta doía-lhe o canto das palavras contidas e nos lábios escondiam-se beijos em segredo. Uma mão cheia deles em cada canto da boca.
Nadava elegantemente naquelas águas, como se cumprisse a coreografia de um alegre bailado, aproveitando com mestria a boleia das marés. Conhecia bem cada recanto daquele mar, encontrando em cada rochedo uma memória.
Seguia para águas distantes, no rasto de uma vertigem, numa grande cumplicidade com o sonho.
Tinha resistido, insistido e finalmente, desistido.
Fugia a um céu em tons de chumbo, rouca de tanto gritar em silêncio, arrastando a máscara de uma vida vivida em calma revolta.
Vivia sem rei nem roque , entre a bonança e a tempestade.
Adivinhando-lhe o estado de espírito, surgiram à sua volta dois pequenos delfins, em alegres cabriolas. Vieram beijar-lhe as lagrimas, cristalizando-as em pequenas pérolas, como se fossem gotas de esperança.
Queriam brincar com uma alegria igual à do Sol, em águas mais claras e transparentes.
Ela sabia que a esperavam num outro mar, de ondas longas e cheias de espuma branca e que lhe abraçariam os receios, acendendo em seu lugar o desejo de voltar a ser uma sereia diabólicamente pura!

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Crepúsculo

Caminhava devagar, enterrando os pés na areia branca e morna, encantada com a beleza daquele crepúsculo. Havia momentos assim, sublimes, em que a Natureza fazia poesia com a exuberância das suas cores.
Apalpou o bolso, num gesto inconsciente, certificando-se que tinha trazido o seu passaporte para aquela viagem sem retorno. Ali, naquela praia deserta, tudo correria conforme desejava.
Reflectira muito até tomar aquela decisão, desde o dia em que recebera o resultado dos exames pedidos, após os primeiros sintomas de doença.
Simplesmente não conseguia conceber todo o sofrimento de ver o seu corpo destruído aos poucos ou de assistir diariamente à angústia da sua família e amigos. Preferia ser recordada no auge da sua beleza e juventude, como uma estrela cadente, de existência breve, mas que ainda assim lhes iluminara o céu.
A vida tinha sido boa até aí ... uma família fantástica e unida, êxito escolar e profissional e todo o amor e amizade recebidos. Mas simplesmente não aceitava ser um anjo caído, a quem já não seriam permitidos novos vôos.
No limiar daquele fim anunciado, pensava na relatividade do tempo e recordava momentos preciosos que embora breves, a tinham feito sonhar. Palavras doces, que outrora fizeram com que o tempo perdesse as horas e os minutos. Dias em que só havia lugar para sorrisos, carinhos e segredos. Durante um tempo tinha acreditado, mesmo quando a distância virou silêncio e o silêncio virou saudade. Intensamente sonhadora, adorava aquela cumplicidade que talvez fosse uma verdade só sua. Tinha rumado por trilhos de incertezas, na ânsia de um dia recordar tudo aquilo sem um peso no peito.
Finalmente tinha encontrado o seu equilíbrio, ao deixar de se procurar fora de si, em pedaços recortados ... um aqui, outro ali ...
Irónicamente, agora que conseguira descomplicar-se, tudo terminava!
Deixou o vento seduzi-la, sempre adorara a forma como o vento lhe tocava a pele e a despenteava... ao longe vozes, ... um grupo de vozinhas cristalinas e animadas. Sorte?! Azar?!
Tudo bem, não seria nesse dia. Lançaria o seu destino noutra maré. Agora iria beber um pouco do prazer de brincar com aquelas crianças, como se criança ainda fosse...
Ainda havia tempo.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Estes humanos!!


Este mundo está longe de ser justo! É cruel e priveligia de forma evidente os poderosos, corruptos e mentirosos.
A honestidade vale muito pouco. Aliás, a honestidade absoluta pode até prejudicar quem a pratica.
A solidão já é um estado de alma para a maioria e praticam-se actos comuns em climas de alta tensão.
Vivem-se amores sem existência real e sofrem-se desilusões com gentes de alma ausente. A maioria está à deriva em águas perigosas e marés traiçoeiras.
Por todo o lado se observa corrosão de ideais e de carácter. Vê-se gente (as crianças doem-me especialmente) a morrer de fome, de guerra e de doenças provocadas pela ganância alheia. Revolta-me ver os sonhos da humanidade feridos e corrompidos.
Como diria Thoreau, a maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero.
Quanto a mim, recuso-me a entrar neste poço sem resistência! Vou fazendo voos mais tranquilos e no meu peito acalento um ideal sem preço!

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

A brisa

Sempre fui do género 2 em 1. Essa filosofia podia ter sido inventada para mim. Sou assim desde que me conheço como gente, uma luta constante entre o racional e o emocional. Luta muito desigual, diga-se em abono da verdade, pois o emocional, sempre foi e será o meu lado mais forte! Talvez por isso, nunca perdi o hábito de sonhar acordada...e neste hábito me refugio, sempre que a minha alma o pede.
Hoje, mais uma vez sonhei...entre o acordada e o adormecida, bem mais para lá do que para cá...e foi nesse estado de semi-inconsciência que vi aqueles dois pequenitos a correr de mãos dadas na direcção do nevoeiro. Uma brisa repentina ficou mais forte, envolvendo-me e convidando-me a seguir em frente. Continuei a observar aqueles dois que maravilhados afastavam a névoa com os braços, em gestos harmoniosos e risos cristalinos. Espantei-me quando repentinamente aquela floresta se tornou visível aos meus olhos. Entrei, pairando entre o receio e o fascínio que aquelas duas crianças exerciam sobre mim.
De novo aquela brisa perfumada, que me acalmava os nervos irritados, fazendo-me sentir maravilhosamente refrescada e até entusiasmada.
Segui um trilho ladeado por umas árvores de copas altas, de um tom intensamente verde, até chegar a uma clareira. Vi-os de imediato, com aquele par de cabeçitas coroadas de caracóis escuros e brilhantes encostados um ao outro e aproximei-me até poder observá-los.
Foi um choque reconhecer neles os meus e os teus olhos! Aqueles não eram olhos de criança! Olhavam-se com com uma expressão amadurecida, como se já tivessem vivido muitas vidas até aquele reencontro em corpo de criança.
As palavras trocadas eram escassas, mas cheias de riso e de ternura. Não eram duas crianças comuns, estavam repletas de uma luz interior, nascida da compreensão, afinidade e gratidão por se terem um ao outro.
A menina olhou-me então e emocionada fitei os meus próprios olhos naquela criança. Ambos me deram as mãos e me disseram "nunca esqueças o sabor do nosso abraço, pois quando a tua existência acabar, falarás sobre nós com as estrelas!"...
Senti agora a brisa transportar-me de regresso e acordei de novo consciente, no meu sofá, mas ausente de mim, como uma turista, observando os ecos da minha história.
Agradeço ao sonho esta liberdade e sinto-me numa fronteira, vestida de incertezas e cegueira consentida.
Quero adormecer de novo, para ver nascer o que o sonho produz e nesse sonho irei achar o meu Norte.

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Aguarela

Os dias correm e ela pinta na cara risos e sorrisos, que despistam o que lhe pesa no fundo dos olhos. Reveste-se de cores, que contrastam com as que lhe vão no interior. Aguarda fechada noutra dimensão, onde as paisagens são desfocadas e pintadas a sépia. Vai lutando contra o que não sabe definir ou que não consegue enfrentar. Espera, avaliando as suas fraquezas, que se resolvam mistérios cobertos de silêncios que lhe tiram o brilho. Cansa-se de ser forte não o sendo e de não saber resguardar o seu mundo das suas inseguranças. Procura no céu estrelas cadentes para formular desejos simples, de noites mais risonhas e encantadas. É viajante em barca à deriva, esperando aportar numa terra sem armas, porque não possui escudo nem perímetro de segurança.
Deixa-se invadir pelo riso das crianças, que espectadoras e participantes neste palco da vida, a arrastam para as suas brincadeiras e palhaçadas...tenta a todo o custo transmitir-lhes a segurança e a paz que tanto precisam de encontrar no seu mundo infantil e colorido. São elas com os seus risos, que lhe pintam numa aguarela um amor lindo, sem barreiras e sem limites, neste mundo tão limitado.
Disfarça a melancolia, para que possam sentir que o carinho é um alimento que pinta nos olhos um arco-íris, tecido de beijinhos e ternuras de cores doces.

domingo, 6 de Setembro de 2009

Um abraço perfeito

Ali estava sonolenta, encostada na sombra de uma doce palmeira, deixando a brisa levar os desejos para o mar. Desejos tão lindos como loucos...
De perna flectida e cabeça pendente, relaxada, com o corpo protegido na rocha, sentia a calidez do sol a dourar-lhe a pele.
Era um entardecer pintado em tons de ouro e azul e ela recordava com ternura, a inquietude do primeiro encontro. Por cada pensamento um sorriso...
Lembrou a brincadeira, o riso, o embaraço, os olhares por cima do cardápio, naquele restaurante à beira-mar plantado. Recordou o desejo contido no sabor dos beijos trocados, o aconchego espesso dos abraços, o suave deslizar das mãos entrelaçadas e o aroma inebriante de dois perfumes perfeitos.
Ali, naquela tarde, pararam num tempo sem tempo, para reinventarem sentimentos perdidos. Pintaram aquele dia com uma cor feliz, viraram as palavras do avesso e lançaram-nas ao sabor fugaz dos ventos.
Quando enfim se afastaram, levavam nos olhos a luz das estrelas e os sons de um mar sereno a ecoar nos ouvidos.
E ela ali estava na praia, mergulhando nas ondas daquelas memórias enfeitadas, imaginando um qualquer final feliz, que incluísse o calor e o perfume daquele abraço perfeito.

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Para variar...



Ri-me tanto com este Animal que decidi partilhar convosco...aqui fica para variar um bocadinho.
Fiquem bem.
Beijos para todos :)))