sábado, 6 de Fevereiro de 2010

Passos ao luar







A brisa varria a costa enquanto as ondas vinham, leves e ritmadas, reclamar a lisura e a maciez da areia branca.
A água brilhava como prata e a lua descia sobre um poço de paz, acendendo-se no mar como um desejo.
Parecia-lhe vê-la ainda ali, a pairar, fazendo a dança do vento com flores penduradas no cabelo e o ventre salpicado de beijos.
O sol a banhar-lhe a pele morena, cor da canela. Rosto oval, emoldurado por caracóis escuros. Morena, menina, dourada, serena e inquieta, a quem sempre se rendia entre o segredo da noite e o sol da manhã.
Tinha presente cada beijo, cada abraço e uns olhos cálidos de mel e de cacau.
Perfume quente, doce e feiticeiro, que se enrolava no corpo como fitas de seda, fazendo-o prisioneiro daquela beleza morena. Seduzia-se só de a adivinhar em indefesas madrugadas.
Morena que passeia na praia e inventa passos ao luar; que sonha e descobre atalhos para o paraíso enquanto se olha no espelho do mar.
Estava ali de olhos fechados, num abismo de tempo silencioso, moldando-a no escuro, fazendo-a escultura no pensamento. Procurava-a em pedaços recortados de alegria transbordante. Morria de morte lenta no desejo, vivendo entre a tempestade e a bonança, entre si e a realidade.
A morena voara na brisa da maré vazante, brincando com o vento. Levara o cheiro da flor e a cor da beleza, deixando os búzios virados para Norte.

domingo, 10 de Janeiro de 2010

Um dia conheci-te...desconhecido!



Era noite e o céu estava de um azul de fantasia.
A sombra de um homem movia-se lentamente num jardim.
Umas asas bateram ao de leve, sem fazer barulho, escondendo-se nas sombras gentilmente oferecidas pelas árvores.
Curiosa espreitava, já encantada com o que ia observando. Reconhecê-lo-ia em qualquer lugar, mesmo passados tantos anos. Observava-lhe a expressão concentrada, de quem tem algo importante a decidir.
Ele, imaginando-se só, deixou cair a máscara, revelando o ar atormentado de uma solidão disfarçada de auto-suficiência.
Não conseguindo resistir aproximou-se, imprudente.
Uma nuvem traiçoeira tapou o luar. Foi apenas por um instante, mas foi o suficiente para bater num ramo e cair desastradamente na sua frente.
O susto e o espanto foram mútuos.
Ela corou de vergonha e ele riu-se descaradamente do seu ar contrariado e descomposto!
-O que foi?! Ripostou ela, levantando-se e empinando o nariz...- Não me reconheces? Já não acreditas em fadas?
-Em tempos acreditei, sim. Mas depois...cresci.
-Grande tolo! É por isso que os teus desejos não se realizam! Já não acreditas neles!
-O que sabes tu dos meus desejos, ó sua fadinha reguila?
Ela riu-se trocista...
-Ora! Continuas com a mania...eu sou uma fada! E das boas, se queres saber.
-Nota-se, voas como um morcego pitosga! Hahahaha...mas dizes que já nos conheciamos?!
-Cresceste mesmo - constatou ela tristemente - eu era a TUA fada, aquela a quem encomendaste os teus sonhos!
-Então conta-me lá...para onde foram os meus sonhos? Aproxima-te, vem contar-mos ao ouvido...-acrescentou, não resistindo a provocá-la.
-Pois fica sabendo que vim exactamente com essa missão. - afirmou ela convicta - Tu guardaste os teus sonhos e não te lembras onde. Cobriste-os e disfarçaste-os com coisas sem importância e eles não gostam de ser escondidos, vão-se! Por isso vives perdido, com saudades deles...eu vim para te ajudar a encontrá-los.
-E porque te foste embora?
-Foste tu quem me mandou embora, quando decidiste CRESCER! - declarou amuada...-Mas ontem ouvi-te dizer que adoravas voltar aos teus tempos de criança...pois então, aqui estou! Voltei!!
-Hum...e como vais tu ajudar-me a encontrar esse tesouro perdido?
-Ora, como se não soubesses...tens que me deixar entrar de novo dentro de ti e procurar...-disse ela com ar guloso.
-Ok, vamos a isso então. Como entras?
-Fecha os olhos,...descontrai-te e pensa em coisas boas, doces, alegres, travessuras, diabruras, algodão doce e gelados de chocolate....psstt...
-Ei! Onde te meteste?
-Já cá estou, dentro de ti. Não sentes as cócegas? Já te esqueceste?...Um dia conheci-te, desconhecido!...Muito bem, os teus sonhos estão aqui, na minha mão, já os encontrei...
-Ok, agora podes sair, por favor? Não gosto que me vejam assim, por dentro!
-Certo, já sabes o que tens a fazer...diabruras e travessuras, bolos, chocolates, rebuçados, caramelos, gomas deliciosas...ups, já estou cá fora!
-Fada gulosa e comilona, só pensas em doces! Ficas comigo agora? Não voltas a partir? Não quero voltar a perder os meus sonhos...
-Então não os escondas de novo! Um sonho também gosta de se sentir importante...e eu fico sim, se prometeres que não me cortas as asas...

domingo, 27 de Dezembro de 2009

Um desejo no reino das fadas




Acordei de manhã com cócegas nos pés. Acontece-me sempre isso quando é um dia especial no reino das fadas!
Eu sou a fada Maria e tenho que ir depressa para o palácio das fadas, pois a nossa fada raínha, a fada Margarida, vai receber esta noite o Novo Ano com uma festa magnífica. Todas as fadas do reino foram convidadas e vai ser uma festa maravilhosa!
O palácio das fadas é lindo e neste dia está mais lindo que nunca. Todas a flores estão viradas para o sol, vaidosas das suas cores. As borboletas esvoaçam pelo jardim e dançam uma valsa em cada flor. Estrelas mágicas iluminam os caminhos, para que o Ano Novo se sinta bem recebido.
Vêem-se tendas espalhadas pelos jardins do palácio com belísimas decorações, onde todos os convidados podem provar as mais doces iguarias do reino das fadas. Aromas deliciosos chegam ao meu nariz sardento, dando-me uma enorme vontade de assaltar um bolo! Eu ainda não vos contei, mas sou a fada mais gulosa do reino, a seguir à raínha Margarida, é claro!
Numa tenda especial estão as uvas. No nosso reino acredita-se que se devem comer 12 uvas ao bater das doze badaladas. Por cada uva devemos pedir um desejo, mas este apenas se realizará se for pedido com o coração!
Todas as fadas se estão a enfeitar, pois todas querem aparecer lindas, no salão de baile. Estão a ficar encantadoras, com os seus vestidos feitos de tule e seda, pó de estrelas no cabelo em todas as cores do arco-íris...é algo digno de se ver!
A fada raínha, a fada Margarida, apareceu na minha frente. Sorriu ao lembrar-se que tenho andado um pouco tristonha ultimamente e disse:
-Fada Maria, ainda te lembras do segredo que todas as fadas conhecem? Aquele que diz que todos os sonhos se podem tornar realidade se nos esforçarmos muito por isso?
É claro que eu conheço esse segredo e ela tem razão! Se o nosso coração estiver cheio de esperança e de sonhos, todos os dias teremos surpresas maravilhosas.
Ora eu sei muito bem o que vou desejar ao entrar neste ano! Oh se sei!! É um desejo lindo e maravilhoso que me fará muito feliz! E vai ser pedido do fundo do coração. Pelo menos metade das uvas vão para esse desejo.
No país das fadas eu sei que ele se vai realizar!
Mas não vos conto qual é o meu desejo especial! Não posso porque é segredo! Shiuuuuuuuu.....










Este conto é para a minha fadinha Margarida, uma das raínhas do meu coração. É para lhe contar na manhã da passagem de ano , logo ao acordar. Afinal também tem que se por bonita para a festa! :))

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

A praia

Num entardecer encantado caminhava pela areia. O andar ondulante assemelhava-se a uma dança e nos olhos bailava-lhe o verde do mar.
Aquela praia encantava-a!
O mar formava pequenas lagoas entre os bancos de coral, onde brincavam peixes coloridos. O seu fundo branco estava revestido de madepérola, das conchas que ali repousavam. Nos limites da areia as palmeiras fechavam o cenário, rodeadas de exuberante vegetação sobre a qual esvoaçavam borboletas com asas de ouro. Sentia-se nas margens do paraíso!
Era ali que as suas memórias surgiam, intactas e perfeitas, embaladas pela leve ondulação do mar. Aí sim, sentou-se na praia e permitiu-se recordar...
...recordar duas almas sedutoras e seduzidas. Momentos sublimes de prazer e doçura em noites de perdição. A loucura dos sentidos, as pernas enroladas e o acender do desejo. Recordou a vertigem de uma arritmia que surgia caprichosa, quando lábios quentes e macios lhe deslizavam na pele murmurando no seu ouvido segredos inconfessáveis. Mãos ávidas a percorrer o contorno dos corpos em ternas madrugadas, suspensas na sensualidade de uma dança de fogo. Corpos fundidos num sentir intenso e primitivo...
Mansamente, o canto do vento veio vigiar-lhe a alma ao anoitecer, acordando-a na esquina dos sonhos.
O mar veio com os seus dedos de espuma branca lavar-lhe mágoa e melancolia.
Fechou de novo as memórias no segredo de uma concha. Quem sabe um dia faria uma fogueira de lembranças e veria, vestido de fogo, o seu sonho morrer...naquela praia.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

5 Revelações


O Pedro Viegas do 1000 CONVERSAS colocou-me perante este desafio.


Hum... eu vou tentar completar as frases, mas já sei que depois vou pensar e pensar e achar que também podia dizer antes outras coisas igualmente verdadeiras a meu respeito. Enfim, cá fica um pouquinho sobre a minha pessoa...




Eu já tive... muita mais fé nas pessoas.
Eu nunca... conseguiria negar ajuda a quem ma pedisse.
Eu sei... que não sou perfeita, mas sei que me esforço muito por dar o meu melhor aos que amo.
Eu quero... que as minhas filhas sejam miúdas saudáveis e muito felizes.
Eu sonho... com um planeta igual ao que temos, mas com pessoas muito diferentes para o habitar!


Faz parte do jogo enviar isto a 10 "vítimas" e eu escolhi as seguintes :))


  • Mago Merlim e o seu "Caldeirão"

  • Ricardo Valente com "Poema e Filosofia"

  • Pedro Luso com "Panorama"

  • Tais Luso de Carvalho e o seu "Porto das Crónicas"

  • Stella Tavares eo "Manual do Inseguro"

  • Doroni Hilgenberg com "Estrelas"

  • Tio do Algarve e "Portuguese Way"

  • Only Words

  • António Gallobar

  • Profeta

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Carinho de avô

Hoje faleceu alguém que foi um segundo pai para mim e um avô maravilhoso para as minhas filhas.
Era dono de uma gentileza sem limites e adorava mostrar a todos quantos lá iam a casa as fotografias das netas. Dizia de peito inchado "vejam como são lindas as minhas netinhas!"
Possuia um enorme tesouro de histórias para contar dos seus tempos de jogador de futebol e de caçador de perdizes, usando-as sempre para transmitir à pequenada valores fundamentais e imensa sabedoria. Histórias sobre os feitos familiares e acontecimentos divertidos que faziam as miudas rir à gargalhada. Como ele sabia que as crianças adoram saber as suas raízes e de como o orgulho na família é uma excelente contribuição para a sua auto-estima!
Quando estava mais cabisbaixo, era só ver uma das netas para lhe voltar o brilho aos olhos e imediatamente trocava mimos por doces travessuras, passeios pela quinta com direito a visitas ao galinheiro para ver os pintainhos, os patos no tanque, a casota com o cão, a lições de agricultura e a muito, muito carinho.
Foi um pai magnífico, paciente, atento, carinhoso e sempre presente. A mim adoptou-me desde que me conheceu. Como lhe estou grata por isso!
Afinal não lhe restava muito tempo, mas tinha sempre muito tempo para nos dedicar.
Deixa uma saudade imensa e tem a minha eterna gratidão por todo o amor que nos ofereceu.
Para a Margarida o avozinho morreu, mas é agora uma das estrelas mais bonitas do céu. Isso de alguma forma consolou-a vindo de encontro às suas recordações do avô...afinal um herói não desaparece! Transforma-se em algo grandioso, certo? Era tão bom que todos pudessemos sentir assim...

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Na boleia das marés

Num oceano tão antigo como o mundo, governado por Neptuno, habitam as sereias.
São belas, coroadas de flores marinhas e de cabeleiras esvoaçantes ao capricho das correntes.
Feiticeiras sempre em vigília, que possuem na voz a doçura e o encanto das palavras. Dizem que são imprudentes os que escutam os seus cantos e promessas sedutoras...

Naquela profundidade azul e misteriosa, havia uma gruta, onde brilhava uma luz morna e suave.
Lá dentro, uma das filhas de Neptuno enfeitava-se com os seus colares predilectos, feitos de conchas raras enfiadas em finíssimos fios de algas vermelho rubi.
Um grande búzio tocava as suas músicas de eleição...ela sorria, na expectativa daquele encontro, enquanto penteava o longo cabelo com um pente de marfim nacarado.
Pequenos peixes coloridos depositavam-lhe flores minúsculas naquelas madeixas sedosas e perfumavam-na com as essências da sua brisa favorita.
Havia um lindo brilho nos seus olhos verdes.
Alisou a cauda, olhou em volta pela última vez fixando cada pormenor e saiu furtivamente.
No peito levava a emoção, na cabeça as imagens que lhe eram mais preciosas, na garganta doía-lhe o canto das palavras contidas e nos lábios escondiam-se beijos em segredo. Uma mão cheia deles em cada canto da boca.
Nadava elegantemente naquelas águas, como se cumprisse a coreografia de um alegre bailado, aproveitando com mestria a boleia das marés. Conhecia bem cada recanto daquele mar, encontrando em cada rochedo uma memória.
Seguia para águas distantes, no rasto de uma vertigem, numa grande cumplicidade com o sonho.
Tinha resistido, insistido e finalmente, desistido.
Fugia a um céu em tons de chumbo, rouca de tanto gritar em silêncio, arrastando a máscara de uma vida vivida em calma revolta.
Vivia sem rei nem roque , entre a bonança e a tempestade.
Adivinhando-lhe o estado de espírito, surgiram à sua volta dois pequenos delfins, em alegres cabriolas. Vieram beijar-lhe as lagrimas, cristalizando-as em pequenas pérolas, como se fossem gotas de esperança.
Queriam brincar com uma alegria igual à do Sol, em águas mais claras e transparentes.
Ela sabia que a esperavam num outro mar, de ondas longas e cheias de espuma branca e que lhe abraçariam os receios, acendendo em seu lugar o desejo de voltar a ser uma sereia diabólicamente pura!