segunda-feira, 1 de março de 2010

O espelho

Olhava a sua imagem reflectida no espelho, em jeito de balanço de uma vida.

Caracóis prateados e abundantes emolduravam-lhe o rosto de expressão benevolente e serena.

Uma silhueta esbelta mostrando ainda sinais de graciosidade.

Longe iam os tempos de angústia e as desilusões sofridas com amores do passado. Ali estava agora perdida em memórias, com um sorriso no canto dos lábios. Lábios onde sempre guardava beijos preciosos para distribuir nas bochechinhas daqueles seres pequeninos, saltitantes e meigos.

Eram fontes de alegria que a envolviam sempre em abraços apertados, enquanto lhe diziam : "Cheira tão bem avózinha! Que bolinho fizeste hoje para o lanche?"

Preenchiam-lhe o colo enquanto contavam segredos, sabendo que eram ouvidos sem pressa por um coração cheio de sábios conselhos e repleto de ternura, no qual tinham lugar cativo.

"Vais ver-nos jogar este fim de semana avó? Vamos ganhar aquele jogo só para ti! Também vamos ter muitas taças como tu avó!"

Aquele brilho nos olhos, a expressão de confiança, a emoção e o entusiasmo que lhe traziam...os seus netos, as estrelas do seu céu, naquela vida onde não faltaram sobressaltos.

Recordou, perdida no tempo, a conquista diária da sua tranquilidade. Aquele amor único, que lhe foi oferecido de forma incondicional. Um amor sem egoismos que lhe permitiu resgatar a melhor versão de si própria após tanto desgaste vão.

Esse amor que agora lhe entrava no quarto e a abraçava, formando naquele espelho um quadro cúmplice e encantador.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Quero um cheirinho de azul

Lua faceira, minha velha amiga...diz-me, os sonhos para onde vão?
Eu não sonhei com cordas para amarrar a alegria; não quero ter medo da noite ter fim; não quero verdades incertas nem farrapos de sonhos.
Sonhei acordar com a voz do mar e o corpo embriagado de desejo; sonhei trocar segredos e palavras de mel; sonhei sacudir estrelas e apanhar purpurinas; quero dançar descalça na areia, como se não houvesse amanhã; quero que o meu coração voe com as asas de mil fadas traquinas; quero um entendimento sereno e a cumplicidade de alguém que se deixe tocar; quero o refúgio de um abraço seguro em manhãs quentes com café; quero algo tão genuino como um sorriso de ternura.
Mas se tiver de partir não digo adeus! Apanho a sétima onda sem tocar na areia e vou conhecer a secreta noite dos peixes. Serei embalada pelo suave ondular do mar. Deixo um frasco de perfume vazio que continuará a largar cheiro.
Lua, minha velha amiga, acende o meu sonho!
Amanhã é um novo dia, mas eu quero dias com cheirinho de azul!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Passos ao luar







A brisa varria a costa enquanto as ondas vinham, leves e ritmadas, reclamar a lisura e a maciez da areia branca.
A água brilhava como prata e a lua descia sobre um poço de paz, acendendo-se no mar como um desejo.
Parecia-lhe vê-la ainda ali, a pairar, fazendo a dança do vento com flores penduradas no cabelo e o ventre salpicado de beijos.
O sol a banhar-lhe a pele morena, cor da canela. Rosto oval, emoldurado por caracóis escuros. Morena, menina, dourada, serena e inquieta, a quem sempre se rendia entre o segredo da noite e o sol da manhã.
Tinha presente cada beijo, cada abraço e uns olhos cálidos de mel e de cacau.
Perfume quente, doce e feiticeiro, que se enrolava no corpo como fitas de seda, fazendo-o prisioneiro daquela beleza morena. Seduzia-se só de a adivinhar em indefesas madrugadas.
Morena que passeia na praia e inventa passos ao luar; que sonha e descobre atalhos para o paraíso enquanto se olha no espelho do mar.
Estava ali de olhos fechados, num abismo de tempo silencioso, moldando-a no escuro, fazendo-a escultura no pensamento. Procurava-a em pedaços recortados de alegria transbordante. Morria de morte lenta no desejo, vivendo entre a tempestade e a bonança, entre si e a realidade.
A morena voara na brisa da maré vazante, brincando com o vento. Levara o cheiro da flor e a cor da beleza, deixando os búzios virados para Norte.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Um dia conheci-te...desconhecido!



Era noite e o céu estava de um azul de fantasia.
A sombra de um homem movia-se lentamente num jardim.
Umas asas bateram ao de leve, sem fazer barulho, escondendo-se nas sombras gentilmente oferecidas pelas árvores.
Curiosa espreitava, já encantada com o que ia observando. Reconhecê-lo-ia em qualquer lugar, mesmo passados tantos anos. Observava-lhe a expressão concentrada, de quem tem algo importante a decidir.
Ele, imaginando-se só, deixou cair a máscara, revelando o ar atormentado de uma solidão disfarçada de auto-suficiência.
Não conseguindo resistir aproximou-se, imprudente.
Uma nuvem traiçoeira tapou o luar. Foi apenas por um instante, mas foi o suficiente para bater num ramo e cair desastradamente na sua frente.
O susto e o espanto foram mútuos.
Ela corou de vergonha e ele riu-se descaradamente do seu ar contrariado e descomposto!
-O que foi?! Ripostou ela, levantando-se e empinando o nariz...- Não me reconheces? Já não acreditas em fadas?
-Em tempos acreditei, sim. Mas depois...cresci.
-Grande tolo! É por isso que os teus desejos não se realizam! Já não acreditas neles!
-O que sabes tu dos meus desejos, ó sua fadinha reguila?
Ela riu-se trocista...
-Ora! Continuas com a mania...eu sou uma fada! E das boas, se queres saber.
-Nota-se, voas como um morcego pitosga! Hahahaha...mas dizes que já nos conheciamos?!
-Cresceste mesmo - constatou ela tristemente - eu era a TUA fada, aquela a quem encomendaste os teus sonhos!
-Então conta-me lá...para onde foram os meus sonhos? Aproxima-te, vem contar-mos ao ouvido...-acrescentou, não resistindo a provocá-la.
-Pois fica sabendo que vim exactamente com essa missão. - afirmou ela convicta - Tu guardaste os teus sonhos e não te lembras onde. Cobriste-os e disfarçaste-os com coisas sem importância e eles não gostam de ser escondidos, vão-se! Por isso vives perdido, com saudades deles...eu vim para te ajudar a encontrá-los.
-E porque te foste embora?
-Foste tu quem me mandou embora, quando decidiste CRESCER! - declarou amuada...-Mas ontem ouvi-te dizer que adoravas voltar aos teus tempos de criança...pois então, aqui estou! Voltei!!
-Hum...e como vais tu ajudar-me a encontrar esse tesouro perdido?
-Ora, como se não soubesses...tens que me deixar entrar de novo dentro de ti e procurar...-disse ela com ar guloso.
-Ok, vamos a isso então. Como entras?
-Fecha os olhos,...descontrai-te e pensa em coisas boas, doces, alegres, travessuras, diabruras, algodão doce e gelados de chocolate....psstt...
-Ei! Onde te meteste?
-Já cá estou, dentro de ti. Não sentes as cócegas? Já te esqueceste?...Um dia conheci-te, desconhecido!...Muito bem, os teus sonhos estão aqui, na minha mão, já os encontrei...
-Ok, agora podes sair, por favor? Não gosto que me vejam assim, por dentro!
-Certo, já sabes o que tens a fazer...diabruras e travessuras, bolos, chocolates, rebuçados, caramelos, gomas deliciosas...ups, já estou cá fora!
-Fada gulosa e comilona, só pensas em doces! Ficas comigo agora? Não voltas a partir? Não quero voltar a perder os meus sonhos...
-Então não os escondas de novo! Um sonho também gosta de se sentir importante...e eu fico sim, se prometeres que não me cortas as asas...

domingo, 27 de dezembro de 2009

Um desejo no reino das fadas




Acordei de manhã com cócegas nos pés. Acontece-me sempre isso quando é um dia especial no reino das fadas!
Eu sou a fada Maria e tenho que ir depressa para o palácio das fadas, pois a nossa fada raínha, a fada Margarida, vai receber esta noite o Novo Ano com uma festa magnífica. Todas as fadas do reino foram convidadas e vai ser uma festa maravilhosa!
O palácio das fadas é lindo e neste dia está mais lindo que nunca. Todas a flores estão viradas para o sol, vaidosas das suas cores. As borboletas esvoaçam pelo jardim e dançam uma valsa em cada flor. Estrelas mágicas iluminam os caminhos, para que o Ano Novo se sinta bem recebido.
Vêem-se tendas espalhadas pelos jardins do palácio com belísimas decorações, onde todos os convidados podem provar as mais doces iguarias do reino das fadas. Aromas deliciosos chegam ao meu nariz sardento, dando-me uma enorme vontade de assaltar um bolo! Eu ainda não vos contei, mas sou a fada mais gulosa do reino, a seguir à raínha Margarida, é claro!
Numa tenda especial estão as uvas. No nosso reino acredita-se que se devem comer 12 uvas ao bater das doze badaladas. Por cada uva devemos pedir um desejo, mas este apenas se realizará se for pedido com o coração!
Todas as fadas se estão a enfeitar, pois todas querem aparecer lindas, no salão de baile. Estão a ficar encantadoras, com os seus vestidos feitos de tule e seda, pó de estrelas no cabelo em todas as cores do arco-íris...é algo digno de se ver!
A fada raínha, a fada Margarida, apareceu na minha frente. Sorriu ao lembrar-se que tenho andado um pouco tristonha ultimamente e disse:
-Fada Maria, ainda te lembras do segredo que todas as fadas conhecem? Aquele que diz que todos os sonhos se podem tornar realidade se nos esforçarmos muito por isso?
É claro que eu conheço esse segredo e ela tem razão! Se o nosso coração estiver cheio de esperança e de sonhos, todos os dias teremos surpresas maravilhosas.
Ora eu sei muito bem o que vou desejar ao entrar neste ano! Oh se sei!! É um desejo lindo e maravilhoso que me fará muito feliz! E vai ser pedido do fundo do coração. Pelo menos metade das uvas vão para esse desejo.
No país das fadas eu sei que ele se vai realizar!
Mas não vos conto qual é o meu desejo especial! Não posso porque é segredo! Shiuuuuuuuu.....










Este conto é para a minha fadinha Margarida, uma das raínhas do meu coração. É para lhe contar na manhã da passagem de ano , logo ao acordar. Afinal também tem que se por bonita para a festa! :))

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

5 Revelações


O Pedro Viegas do 1000 CONVERSAS colocou-me perante este desafio.


Hum... eu vou tentar completar as frases, mas já sei que depois vou pensar e pensar e achar que também podia dizer antes outras coisas igualmente verdadeiras a meu respeito. Enfim, cá fica um pouquinho sobre a minha pessoa...




Eu já tive... muita mais fé nas pessoas.
Eu nunca... conseguiria negar ajuda a quem ma pedisse.
Eu sei... que não sou perfeita, mas sei que me esforço muito por dar o meu melhor aos que amo.
Eu quero... que as minhas filhas sejam miúdas saudáveis e muito felizes.
Eu sonho... com um planeta igual ao que temos, mas com pessoas muito diferentes para o habitar!


Faz parte do jogo enviar isto a 10 "vítimas" e eu escolhi as seguintes :))


  • Mago Merlim e o seu "Caldeirão"

  • Ricardo Valente com "Poema e Filosofia"

  • Pedro Luso com "Panorama"

  • Tais Luso de Carvalho e o seu "Porto das Crónicas"

  • Stella Tavares eo "Manual do Inseguro"

  • Doroni Hilgenberg com "Estrelas"

  • Tio do Algarve e "Portuguese Way"

  • Only Words

  • António Gallobar

  • Profeta

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Carinho de avô

Hoje faleceu alguém que foi um segundo pai para mim e um avô maravilhoso para as minhas filhas.
Era dono de uma gentileza sem limites e adorava mostrar a todos quantos lá iam a casa as fotografias das netas. Dizia de peito inchado "vejam como são lindas as minhas netinhas!"
Possuia um enorme tesouro de histórias para contar dos seus tempos de jogador de futebol e de caçador de perdizes, usando-as sempre para transmitir à pequenada valores fundamentais e imensa sabedoria. Histórias sobre os feitos familiares e acontecimentos divertidos que faziam as miudas rir à gargalhada. Como ele sabia que as crianças adoram saber as suas raízes e de como o orgulho na família é uma excelente contribuição para a sua auto-estima!
Quando estava mais cabisbaixo, era só ver uma das netas para lhe voltar o brilho aos olhos e imediatamente trocava mimos por doces travessuras, passeios pela quinta com direito a visitas ao galinheiro para ver os pintainhos, os patos no tanque, a casota com o cão, a lições de agricultura e a muito, muito carinho.
Foi um pai magnífico, paciente, atento, carinhoso e sempre presente. A mim adoptou-me desde que me conheceu. Como lhe estou grata por isso!
Afinal não lhe restava muito tempo, mas tinha sempre muito tempo para nos dedicar.
Deixa uma saudade imensa e tem a minha eterna gratidão por todo o amor que nos ofereceu.
Para a Margarida o avozinho morreu, mas é agora uma das estrelas mais bonitas do céu. Isso de alguma forma consolou-a vindo de encontro às suas recordações do avô...afinal um herói não desaparece! Transforma-se em algo grandioso, certo? Era tão bom que todos pudessemos sentir assim...