Segunda-feira, 19 de Abril de 2010

Beijinhos do mar

Entre todas as conchinhas do mar, existem umas pequeninas chamadas "beijinhos". São lindas, perfeitas e raras.


Em criança eram o meu tesouro favorito.


Na maré baixa percorria a praia de uma ponta à outra, enquanto a água serena ia e vinha, cobrindo a areia com uma brancura imaculada feita de espuma.


Eram tardes com cheiro a maresia e com o canto das ondas nas rochas como única melodia.


O mar e o céu enchiam o meu coração de menina com aquele azul sem fim, enquanto com alegria e cuidado ia guardando, um a um, os meus "beijinhos do mar".





Por eles vos deixo este pequeno conto...







A tarde caía e o sol desmaiava com um suspiro contente na frescura do mar. Calava-se o vento, segredavam as ondas e corriam leves os sonhos...


No fundo do mar dormia uma sereia sobre uma manta fofa de algas entrelaçadas. A corrente mansinha acariciava-lhe a pele e fazia bailar o seu longo cabelo.


Um peixinho colorido veio segredar-lhe ao ouvido que estava na hora de subir à praia. Era o "peixe despertador".


Feliz, arrancou imediatamente na boleia da corrente, para ver chegar a sua pequena amiga.


Uma cabecita morena, coberta por caracóis, apareceu enfim por entre as dunas. Um sorriso iluminou-lhe a face tristonha, quando avistou aquela cabeleira dourada por trás dos rochedos.


Correu feliz, entrando no mar sem qualquer receio. Logo sentiu uns braços de sereia abraçá-la com ternura. Uma voz meiga e cristalina cantou-lhe baixinho uma canção que falava de amor e amizade.


-Trouxeste o meu tesouro? - perguntou a menina com ar ansioso.


-Sim! -confirmou a sereia, mostrando-lhe uma caixa de grande beleza, revestida a madrepérola, a qual reflectia os lindos tons que vestem o mar.


-O que tem lá dentro? - perguntou a pequenita.


-Esta caixa está cheia de beijinhos das sereias. Neles está guardada a sabedoria do mar, a força das ondas e toda a harmonia que reina no nosso mundo. Cada sábio do mar depositou nessas conchas uma qualidade que será tua sempre que dela precisares.


-E nunca mais me vou sentir só?


-Há um beijinho especial no meio de todos os outros. É o mais pequenino, mas é também o mais perfeito. Sempre que quiseres companhia, só tens que segurá-lo entre as tuas mãos e logo ouvirás o meu canto para te embalar.


-Esse é um beijinho teu?


-Sim, esse é o meu beijo. Podes usá-lo sempre que sentires necessidade de estar comigo.


-Não possso antes vir viver como sereia no teu mar?- perguntou a pequenita com ar infeliz.


-Não, isso não é possível, mas eu sei que vais encontrar no teu mundo, alguém que gostará muito de ti, tal como eu gosto.


-E como vou eu saber se é verdade?


-É o teu coração que vai aprender a confiar. Não tens que ter medo.


-E se essa pessoa me abandonar também?


-Minha querida, antes de mais tu tens-te a ti, sempre! Tu és e deverás continuar a ser a tua maior amiga. Não te esqueças das possibilidades infinitas que nascem da confiança em ti própria. Não dependas dos outros para ser feliz.


-Mas posso sempre vir aqui ver-te?


-Sempre! Palavra de sereia! Guarda este tesouro contigo e sentirás toda a força do mar a acompanhar-te. Quando essa força assentar em ti, deixa que o teu coração cante, dançe e ame livremente. Agora vai e leva contigo os beijinhos do mar.


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10 comentários:

  1. Entre beijinhos e do mar borbulhas,envolvido fui,nessa viagem fantástica de narrativa tua!

    Amei!

    viva la vida

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  2. Cá está mais um que vou ler à minha filhinha!Obrigada.
    Adorei, também te deixo beijinhos do mar.

    Ana Afonso

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  3. Também eu fiz, quando criança, colecções de beijinhos do mar.
    Mais uma vez o fascínio pela praia, pelo mar a produzir um conto maravilhoso, ao jeito de Sophia de Mello Breyner que nos enche de infância e de tranquilidade.

    Um beijo

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  4. Eu ainda tenho uma caixa de vidro cheia de beijinhos que apanhei nas praias do Norte. Há em Leça uma praia chamada praia dos Beijinhos. Não sei se foram as conchas que lhe deram o nome, mas é possível que sim!
    Adorei recordar o tempo da minha infância, quando também eu andava pela praia a procurar beijinhos e outras conchas para fazer colares!

    Beijinhos

    Manuela

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  5. Imaginação nao te falta!É engraçado como ao ler este texto tive uma visão tao nítida da história que contaste!
    Já agora, lamento ter usado quase todos os beijinhos cá de casa nos meus trabalhos manuais quando era pequena eh eh
    sorry :)

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  6. Sempre muito criativos os teus contos, a passar belas mensagens na narrativa.
    Parabéns.

    FC

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  7. Bela escrita, como os beijinhos do mar...
    Beijo, Diaba!

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  8. Engraçado como tdo se repete, né?!? Eu também adora quando ia a praia catar conchinhas com minhas irmãs, e achavamos cada uma diferente da outra, a gente adorava, e assim levávamos pra casa, e guardávamos...o que seria do mundo sem a fantasia, sem as histórias para nos fazer viajar um pouco?1?
    Adorei! Bjocas.
    Waleria.

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  9. Oi amiga!

    Hoje vim convidar você para uma visita ao Porto das Crônicas a fim de participar do lançamento do livro do nosso amigo Cesar Cruz - o patrono do blog ‘Os Causos do Cruz’. Acho que unir nossas forças e dar estímulo a um amigo da blogosfera é abrir mais nosso leque de leitores e de incentivo a todos os que escrevem, e que, além de essencial, é um reconhecimento e carinho a todos nós que gostamos de escrever. O post é ‘O Homem Suprimido’.

    Beijos
    Tais luso

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  10. Ainda hoje tive a procura de beijinhos... O ano passado encontrei 54 no Algarve... ADORO beijinhos e é uma colecção que faço deste mt pequena!!

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