Terça-feira, 23 de Março de 2010

A carta



A noite estava escura e assustadora, daquelas de arrepiar cabelos. O Sol tinha baixado, escondendo-se no horizonte e a Lua teimava em não aparecer. A chuva caía na janela, marcando no vidro um rendilhado de gotas deslizantes. Encostou a face pálida na superfície fria, para acalmar o vento agreste e fustigador que lhe varria o peito. Não encontrava paz e a jornada já ia longa! As coisas começavam a perder o sentido, os sonhos ameaçavam desfazer-se em ilusões, levados por um vento morto.
Daquela janela sobre a praia, ouviu a canção do mar. Parecia-lhe que as sereias cantavam agitando os peixes, os búzios tocavam e baleias gemiam, fazendo eco àquela melodia.
Saiu descalça, sentindo a areia nos pés. O vento soprava-lhe os cabelos para a face, como a tentar fazê-la desistir daquele caminho.
As ondas quebravam violentamente na praia, devorando a areia em dentadas esfomeadas. Acabou por se sentar no molhe, olhando sem ver, o pranto do mar.
Leu de novo aquela carta, já gasta de tanto a dobrar e desdobrar. Umas simples linhas de tinta em papel branco; uma conversa com aquelas letras e o vazio instalara-se.
E a chuva que não parava e o vento que trazia aquelas nuvens nocturnas. Não se viam estrelas no céu...
O mar, furioso, continuava a morder a praia...o seu mar, estava zangado por a ver assim! Ali sentada, confessou-lhe a loucura dos seus sentidos. Sussurou às ondas os seus segredos de Inverno, atirando-lhes palavras que mergulharam na escuridão das águas. Gritou em silêncio toda a sua raiva até que dela já nada restasse. Depois quedou-se pensativa, mais calma, avaliando o que sobrara.
Levantou-se com um gesto indolente, de novo fechada em segredo, colhendo cuidadosamente dentro de si o que restava dos Risos da Primavera, dos sons da Alegria, das sementes da Ternura, um Sonho de cada cor, alguns pedaços de Sabedoria, uns quantos grãos de Bondade e Tolerância...com um sorriso enigmático voltou, seguindo um trilho sem Norte, em busca de uma madrugada coroada de serenidade.

8 comentários:

  1. Fica um travo de doce-amargo a pairar na brisa, a tocar a alma...

    Um beijo

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  2. É um amargo-doce sim, mas gostei especialmente das coisas que reencontrou dentro dela. Com essas pode-se sempre fazer um novo e belo começo!
    Gostei, beijo!

    Ana Afonso

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  3. tocante descrição, prende a respiração até ao fim. parabéns!

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  4. -As ondas quebravam violentamente na praia, devorando a areia em dentadas esfomeadas.-

    Gosto muito da forma como descreves os cenários!
    Bjo

    FC

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  5. Lindo! Bela descrição!

    João Sérgio

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  6. Realmente, muito massa!
    Beijo e tava com saudade, docê!!!

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  7. Esta tua relação com o mar é mesmo muito intensa, quase todos os textos falam dele.
    Gostei deste texto.

    Manuela

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