Num oceano tão antigo como o mundo, governado por Neptuno, habitam as sereias.
São belas, coroadas de flores marinhas e de cabeleiras esvoaçantes ao capricho das correntes.
Feiticeiras sempre em vigília, que possuem na voz a doçura e o encanto das palavras. Dizem que são imprudentes os que escutam os seus cantos e promessas sedutoras...
Naquela profundidade azul e misteriosa, havia uma gruta, onde brilhava uma luz morna e suave.
Lá dentro, uma das filhas de Neptuno enfeitava-se com os seus colares predilectos, feitos de conchas raras enfiadas em finíssimos fios de algas vermelho rubi.
Um grande búzio tocava as suas músicas de eleição...ela sorria, na expectativa daquele encontro, enquanto penteava o longo cabelo com um pente de marfim nacarado.
Pequenos peixes coloridos depositavam-lhe flores minúsculas naquelas madeixas sedosas e perfumavam-na com as essências da sua brisa favorita.
Havia um lindo brilho nos seus olhos verdes.
Alisou a cauda, olhou em volta pela última vez fixando cada pormenor e saiu furtivamente.
No peito levava a emoção, na cabeça as imagens que lhe eram mais preciosas, na garganta doía-lhe o canto das palavras contidas e nos lábios escondiam-se beijos em segredo. Uma mão cheia deles em cada canto da boca.
Nadava elegantemente naquelas águas, como se cumprisse a coreografia de um alegre bailado, aproveitando com mestria a boleia das marés. Conhecia bem cada recanto daquele mar, encontrando em cada rochedo uma memória.
Seguia para águas distantes, no rasto de uma vertigem, numa grande cumplicidade com o sonho.
Tinha resistido, insistido e finalmente, desistido.
Fugia a um céu em tons de chumbo, rouca de tanto gritar em silêncio, arrastando a máscara de uma vida vivida em calma revolta.
Vivia sem rei nem roque , entre a bonança e a tempestade.
Adivinhando-lhe o estado de espírito, surgiram à sua volta dois pequenos delfins, em alegres cabriolas. Vieram beijar-lhe as lagrimas, cristalizando-as em pequenas pérolas, como se fossem gotas de esperança.
Queriam brincar com uma alegria igual à do Sol, em águas mais claras e transparentes.
Ela sabia que a esperavam num outro mar, de ondas longas e cheias de espuma branca e que lhe abraçariam os receios, acendendo em seu lugar o desejo de voltar a ser uma sereia diabólicamente pura!

9 comentários:
Que maravilhoso conto, muitos parabens bela escolha do video, gostei muito de ir na boleia das marés.
Abraço
Deslumbrante esta viagens às profundezas do oceano...
Gosto da magia dos teus contos. Acredito neles e tenho tanta pena de não serem meus!
Um beijo
Este fez-me recordar as noites em que eu lia histórias da pequena sereia à minha filha. Ainda ela era pequenina!
Bjs
Ana Afonso
É esta a vida de muitos que vivem em si, exteriorizando quem não são. Deixar-nos levar pelas marés da vida nem sempre é o caminho. Há que ser sereia e partir ao encontro do que acreditamos ser o caminho da felicidade!
Devemos procurar o que nos faz falta, sempre.
Gostei, como sempre.
FC
Eu sempre sei o que me falta... só não encontro com facilidade..rs
beijos
Belíssimo!
Esta sereia deixa-nos uma bela mensagem de esperança. Numa vida melhor, para quem tem a coragem de deixar o que não presta para trás. Aproveita " com mestria a boleia das marés " para uma vida onde poderá ser mais feliz.
Beijo
Manuela
você escreve tão bem...
beijo, diaba!
Linda musica belo e singelo conto
Azar de quem se deixa levar pelo canto das sereias, porque elas são sim, diabólicamente belas e puras.
bjs
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